Domingo, Abril 29, 2012


INDO À COLOMBIA



Affonso Romano de Sant’Anna

       
Atrás  de mim neste avião para Bogotá, Tatiana Levy escuta no ipod o cantor da hora –Criolo- entoando  “eu  vou para Bogotá”. Só que êle esta satirizando o universo da droga,  e uns 30 escritores  brasileiros estamos indo a Bogotá  traficar literatura – que aliás é uma droga mais forte e interessante.

Faz parte do kit dado aos congressistas, um guarda-chuva. Bela iniciativa, porque aqui a temperatura é intempestiva. Este país também é o pais das botas e bolsas. Todo mundo quer comprá-las, posto que são mais baratas. Me dizia uma jornalista (enquanto me entrevistava) que cada colombiana tem pelo menos seis pares de bota.

         Ligo a televisão do hotel e vejo Jorge Zapata (que dirige o CERLALC-Centro para a promoção do livro na America Latina e no Caribe), dizer que na Inglaterra, quando uma criança nasce, aparece sempre um médico e lhe dão também um número determinado de livros. Leitura amamenta a vida desde cedo.

         Num jantar,  Camila Cabete e Ana Beraba  contam a estória da adolecente chilena (que esteve por aqui) e resolveu escrever por conta própria a continuação do Harry Poter, volume 6: botou seu texto na internet e teve milhões de acessos. Um editor publicou seu livro, mas teve só três traduções, e vendeu “apenas” 20 mil exemplares , ou seja ”um fracasso” comparado com o mundo virtual.

         De  manhã telefona da portaria o fotógrafo venezuelano ( de origem húngara e judaica) Vasco Szinetar querendo  vir ao meu/nosso quarto para fazer fotos minhas e de Marina diante do espelho. Espantoso. É um projeto que desenvolve há tempos. Encontro-o na portaria, mostra-me um portifólio com fotos de Garcia Marques, Vargas Llosa, Borges e outros diante  do espelho. Ele também aparece fotografando, seus autores/objetos, num jogo de imagens. É um projeto de instalações que levará à Bienal de são Paulo da qual já participou. Subimos, tiramos fotos divertidas.

          Clarice Lispector está sendo homenageada com uma exposição. Como se sabe ela esteve na Colômbia num congresso de bruxas. Era uma bruxa da linguagem. Marina e eu, certa vez a levamos a uma cartomante,  que virou personagem de “A hora da estrela”. O poeta Juan Cobo Borda lembra disto ao falar também de outro bruxo-Guimarães Rosa. Guimarães Rosa também viveu aqui como embaixador aqui em 1948, assistiu ao massacre chamado “bogotazo”. Agora os estudantes do Instituto Brasil-Colombia fazem trabalhos sobre ele.

        Traficando poesia vim não só para falar sobre Drummond, para o Concurso sobre Guimarães Rosa, mas  para o lançamento de uma antologia que tem várias singularidades: a primeira é que a capa é de Miguel Gontijo, esse  excelente pintor mineiro; a segunda é que são uns 13 mil exemplares, cada um custando só 1 real ao leitor. E os assinantes da revista “Mal pensante” recebem o livro grátis. Isto é façanha do poeta e tradutor John Galán Casanova junto com a Universidade Externado. Na  leitura pública que fizemos dos poemas da antologia, os leitores ganharam exemplares grátis e seguiam em espanhol o que eu ia lendo em português.

Domingo, Abril 15, 2012

Nao teve jeito, se atracaram e se feriram mortalmente. E ambos eram cordeiros.


O LOBO E O CORDEIRO: VERSOES


Affonso Romano de Sant’ Anna

         Dizem que a primeira versão desta fábula é de Demétrios de Phalerum e que Esopo (Grécia), Fedro (Roma), La Fontaine (França) e até Monteiro Lobato (Brasil) apenas a reescreveram. Se abrirmos os jornais essa fábula continua atual. Narro a versão divulgada por La Fontaine e dou minha feroz e mansa contribuição a esse fabulário.

Versão clássica:
         Dizem que um cordeiro pôs-se a beber num regato de águas limpas. Apareceu por ali um lobo que parecia estar faminto  e em vez de beber água, foi logo dizendo ao cordeiro:
         -Como ousas te meter nessa água que é minha?  Vou te castigar por isto.
         O cordeiro respeitosamente  chamando o outro de Vossa Majestade, pediu que o lobo não se irritasse, pois, afinal, o lobo é que estava na parte de cima do riacho, o cordeiro mais abaixo e não poderia turvar a água.
         O lobo ficou ainda mais furioso e alegou que além do mais o cordeiro andava falando mal dele há um ano.
         -Como? disse o cordeiro surpreso, se há um ano eu nem havia nascido.
         -Ah, então foi seu irmão.
         -Mas eu não tenho irmão…
         -Então foi algum dos seus, o pastor, os cães, e, de qualquer forma, eu vou me vingar.
         E assim dizendo deu um bote no cordeiro, carregou-o para o fundo da floresta e o devorou.

Segunda versão (ARS):

2- Um cordeiro estava  bebendo água, porém  na parte alta de  num riacho, quando, de repente , mais abaixo,   apareceu um lobo, que começou também a beber da mesma água.        
         O lobo virou para o cordeiro e disse:
         -Você está emporcalhando a água que estou bebendo.
         -Mas eu cheguei aqui primeiro, disse o cordeiro, você é que  se meteu  aí embaixo.
         -Vocês cordeiros, não aprendem nunca. Já tive que comer  seu pai e sua mãe por causa disto no ano passado.
         -Porque você não bebe a sua água e me deixa  beber a minha em paz? Disse o cordeiro.
         - É, vocês cordeiros não lêem as fábulas antigas, não estudam história. E assim dizendo deu um bote, arrastou o cordeiro para o fundo da floresta e o devorou.
        
Terceira versão( ARS)

3. Um lobo  chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de cima e começou a beber água, pois estava meio cansado.
         Mal começou a beber notou que um outro lobo se aproximava , instalando-se na parte de baixo do riacho onde começou a beber água.
         Iam bebendo, cada um do seu jeito. A água corria, matava-lhes a sede e era abundante.
         Mas o lobo que estava abaixo começou a  achar que o lobo que estava acima,  estava sujando sua água
         Incomodado, o lobo olhou o outro:
         -Você bem que podia ir beber longe daqui, meu velho, porque esse riacho é meu,
         -Sem essa, “ brother,” vê como fala, porque não sou nenhum cordeiro.
         E a conversa foi ficando tensa, cada vez mais agressiva, até que os dois se atacaram e se estraçalharam mortalmente.

Quarta versão(ARS):

4. Um cordeiro chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de baixo de começou a beber água.
         Estava ali tranquilo quando, na parte de cima do mesmo riacho, surgiu um outro cordeiro que começou a beber da mesma água.
         Não se sabe quem começou a implicar com  quem. Ambos se achavam com direito à água. Nao teve jeito, se atracaram e se feriram mortalmente.
         E ambos eram cordeiros.

Domingo, Abril 08, 2012

Existen fábulas, películas y novelas relatando como a un civilizado le falta un indio, un animal o un simple muñeco para mantener su identidad. Sin ese “otro”, uno se perdería de uno mismo



GUERRILLA: HOMBRES Y ANIMALES



[Tradução: Magarita Duran diretora do Ibraco –INSTITUTO  BRASIL COLOMBIA]
Affonso Romano de Sant’Anna

La foto es expresiva: un saíno caminando al lado de dos ex-rehenes abrazados por una enfermera en la pista de un aeropuerto colombiano. El saíno va tranquilo, en la pista, al lado de su amigo. Lo sigue como una sombra. ¿Como un perro? Como parte del cuerpo de su dueño.

El ex-rehén, militar ahora liberado, pasó doce años en la selva. Tenía una cadena atada a sus pies las 24 horas del día. Trató de escaparse una vez, pasó un mes perdido en la selva y fue recapturado por los bandidos de las FARC. Ahora vuelve a la civilización acompañado de un saíno. Aunque parezca haber llegado al final, la situación de esos ex-prisioneros tal vez sea más problemática de lo que parece. Están pasando de una selva a otra.

Ese saíno que camina al lado de ese hombre es un símbolo de varias cosas. No es un simple “caititu”, como lo denominaban los indios, ni simplemente un pariente del jabalí. Ese animal no es un cerdo. Los cerdos, como lo definen los humanos, son los guerrilleros de las FARC, que están empuercando la vida de Colombia hace varias décadas y obligando a los secuestrados a vivir en chiqueros en las selvas.

Ese saíno que acompaña a ese militar liberado es un individuo de mucha categoría. Él camina noblemente como si pasara en revista a una manada de humanos. Él todavía no sabe que la selva de la ciudad es más peligrosa que la de donde él vino. Allá, él conocía todos los códigos. Vivía en grupos de 15 amigos, había varias hembras para un macho y guardaba en la memoria los caminos dejando su olor característico en los árboles o en los compañeros.

Confieso que estoy muy preocupado porque el militar que lo trajo, después de abrazar a sus familiares, reconocer a los hijos y nietos, fue a visitar al gobernador del departamento del Meta y, en señal de amistad y gratitud, resolvió regalarle el saíno. Al fin de cuentas, el gobernador también había sido prisionero de la guerrilla. Y cuenta la noticia que el sargento Forero le dio una lista de instrucciones para cuidar al amigo, pues éste estaba acostumbrado a tomar tinto con azúcar a las 6 de la mañana, cuando el tormento del cautiverio recomenzaba.

Hizo mal el sargento Forero. Uno no regala así, porque sí, un amigo de esos. ¿Le habrá preguntado a la mascota si quería cambiar de amigo y compañero querido? Ya que las cosas son así, pienso que el gobernador debería, y es lo mejor, adoptar a ese saíno y mantenerlo en palacio para ser visitado y reverenciado por toda la población. Y cuando muera, deberían hacerle una estatua, ya que, al fin de cuentas, el sargento le debe, en buena parte, su vida a él. Es a él que el prisionero se dirigía en los momentos de soledad y angustia. Él era el confesor silencioso, el famoso “amigo correcto en las horas inciertas”. En la selva, sólo le traía alegría a su amigo humano, no daba ningún trabajo, solito se alimentaba de tubérculos, se escapaba de los jaguares y coyotes, únicamente para estar con el rehén.

En realidad, él era rehén del rehén. No rescatable.

Existen fábulas, películas y novelas relatando como a un civilizado le falta un indio, un animal o un simple muñeco para mantener su identidad. Sin ese “otro”, uno se perdería de uno mismo. ¿Cuántos tratados de filosofía y antropología existen sobre esto?


Lo patético de esa fábula verdadera es que ese animal está más próximo de nosotros que los facinerosos de las FARC, los cuales retrocedieron darwinamente y se fueron de la ciudad para la selva.

Ese saíno hizo el trayecto contrario. Él, y algunos otros animales y pájaros. Pues leo, por ejemplo, que esos ex-prisioneros también trajeron un agutí y algunos periquitos. Esto no puede ser un simple trofeo de lucha.

Recuerdo del mundo primitivo o alianza entre el pasado y el presente?

Esto debería ser señal de un pacto de paz entre el hombre y la naturaleza. En efecto, en esa foto de la llegada al aeropuerto de Villavicencio, un ex-rehén ostenta un cayado hecho a mano con la cabeza de un perro o de un caballo.

Los símbolos tienen fuerza.


Sábado, Abril 07, 2012

Paixão, por isto é arma de dois ou três gumes. E corta. E sangra....


VARIAÇÕES EM TORNO DA PAIXÃO


Affonso Romano de Sant’Anna


Paixão é a alucinação amorosa.

E os apaixonados são de duas espécies: os generosos que se dão inteiramente, se jogando estabanadamente nas mãos do outro e os possessivos, que querem que o outro se incorpore a eles  convertidos em sombra viva.

Mas talvez haja um  terceiro tipo: o dos que não se apaixonam, mas despertam paixões. Na impossibilidade ou no medo de se apaixonarem, posto que  paixão é abismo, alimentam-se da paixão alheia, ou melhor, incentivam a  paixão em torno para preencher algo em si.

Paixão, por isto é arma de dois  ou três gumes. E corta. E sangra. Se não sangrou, se não teve insônia, se não desesperou, se não ficou com a alma dependurada num fio de telefone, se não ficou exposto na úmida espera, paixão não era.

Talvez fosse desejo, que o desejo é diferente.

No desejo a gente quer o outro para possuí-lo apenas passageiramente. É como  se fosse um apetite despertado por um fruto ou alguma comida saborosa que saliva nossos sentidos. É como se fosse possuir um objeto na vitrina. É um  desejo de posse natural, estético, erótico, mas sendo mais desejo que qualquer outra coisa, isto vai passar.

E passa.

Na paixão, não.

Na paixão, a gente quer se fundir com o outro. Para sempre. De corpo e alma. Perde totalmente o centro de gravidade. Transfere a moradia de seu ser para a casa do ser alheio. É como se vestisse a pele do outro. E se o outro disser:-Não estou gostando de seu nariz, a gente opera, corta, joga fora, não só o nariz, mas qualquer outra coisa, porque nesse caso, qualquer palavra ou sugestão é ordem.

Vidas renascem com paixões. Outras viram cinzas por causa dela. E há pessoas que são como aquela ave mítica- a Fênix, vivem renascendo das cinzas da paixão.

Marx, portanto, errou completamente . Não é a luta de classe que move a história, é a paixão. Paixão é a revolução a dois. Ela desafia o sistema.

Existe diferença entre amor e paixão?

No amor, claro que há luminosa coabitação. Mas o amor é também paciente construção. Já a paixão é arrebatamento puro e aí a voragem é tão grande que pode tudo se esgotar de repente.

Quantas vezes se apaixona numa vida?

Há gente que vive se inventando paixões para viver, que vive morrendo de amor. E há gente que  organiza toda sua vida em torno de uma única e consumidora paixão.

Paixão é transgressão. Quanto mais obstáculos inventarem, mais o apaixonado os saltará. E o apaixonado não tem medo do ridículo. O que lhe importa o mundo, se o seu mundo é apenas o mundo da pessoa amada?

A paixão tem cor. Mais que vermelha e rubra, é roxa. Pressupõe morte e ressureição.

De paixão vivemos muito.

De paixão morremos sempre.