INDO À COLOMBIA
Affonso
Romano de Sant’Anna
Atrás
de mim neste avião para Bogotá, Tatiana Levy escuta no ipod o cantor da hora
–Criolo- entoando “eu vou para Bogotá”. Só que êle esta satirizando
o universo da droga, e uns 30 escritores brasileiros estamos indo a
Bogotá traficar literatura – que aliás é uma droga mais forte e
interessante.
Faz
parte do kit dado aos congressistas, um guarda-chuva. Bela iniciativa, porque
aqui a temperatura é intempestiva. Este país também é o pais das botas e
bolsas. Todo mundo quer comprá-las, posto que são mais baratas. Me dizia uma
jornalista (enquanto me entrevistava) que cada colombiana tem pelo menos seis
pares de bota.
Ligo a televisão do hotel e vejo Jorge Zapata (que dirige o CERLALC-Centro para
a promoção do livro na America Latina e no Caribe), dizer que na Inglaterra,
quando uma criança nasce, aparece sempre um médico e lhe dão também um número
determinado de livros. Leitura amamenta a vida desde cedo.
Num jantar, Camila Cabete e Ana Beraba contam a estória da
adolecente chilena (que esteve por aqui) e resolveu escrever por conta própria
a continuação do Harry Poter, volume 6: botou seu texto na internet e teve
milhões de acessos. Um editor publicou seu livro, mas teve só três traduções, e
vendeu “apenas” 20 mil exemplares , ou seja ”um fracasso” comparado com o mundo
virtual.
De manhã telefona da portaria o fotógrafo venezuelano ( de origem húngara
e judaica) Vasco Szinetar querendo vir ao meu/nosso quarto para fazer
fotos minhas e de Marina diante do espelho. Espantoso. É um projeto que
desenvolve há tempos. Encontro-o na portaria, mostra-me um portifólio com fotos
de Garcia Marques, Vargas Llosa, Borges e outros diante do espelho. Ele
também aparece fotografando, seus autores/objetos, num jogo de imagens. É um
projeto de instalações que levará à Bienal de são Paulo da qual já participou.
Subimos, tiramos fotos divertidas.
Clarice Lispector está sendo homenageada com uma exposição. Como se sabe ela
esteve na Colômbia num congresso de bruxas. Era uma bruxa da linguagem. Marina
e eu, certa vez a levamos a uma cartomante, que virou personagem de “A
hora da estrela”. O poeta Juan Cobo Borda lembra disto ao falar também de outro
bruxo-Guimarães Rosa. Guimarães Rosa também viveu aqui como embaixador aqui em
1948, assistiu ao massacre chamado “bogotazo”. Agora os estudantes do Instituto
Brasil-Colombia fazem trabalhos sobre ele.
Traficando
poesia vim não só para falar sobre Drummond, para o Concurso sobre Guimarães
Rosa, mas para o lançamento de uma antologia que tem várias
singularidades: a primeira é que a capa é de Miguel Gontijo, esse
excelente pintor mineiro; a segunda é que são uns 13 mil exemplares, cada um
custando só 1 real ao leitor. E os assinantes da revista “Mal pensante” recebem
o livro grátis. Isto é façanha do poeta e tradutor John Galán Casanova junto
com a Universidade Externado. Na leitura pública que fizemos dos poemas
da antologia, os leitores ganharam exemplares grátis e seguiam em espanhol o
que eu ia lendo em português.




